Brincar e Meditar
Brincar e Meditar
Naquela época nada nos
dava mais prazer do que brincarmos. Não era raro, quando chovia, ou já tinha
chovido, vestirmos o impermeável, calçarmos as galochas e chapinhar pelas poças
de água. Afinal era a forma de não escorregarmos na lama e ao mesmo tempo nos divertirmos.
Calcorreávamos assim pelos caminhos da quinta até chegarmos à ponte, cenário
das nossas comédias e do nosso circo. Dois atores, um atuava, o outro
improvisava o drama, o palhaço, a comédia. No fim, ambas, eramos o público, riamos e batíamos palmas em puro divertimento.
Outras vezes, pela
Primavera dentro, rompíamos os campos pejados de erva azeda, que mastigávamos deliciadas,
evitando os trilhos e rebolando nos tufos macios e às vezes húmido, onde nos deitávamos
olhando o céu, em profunda comunhão com a natureza. Nestas alturas criávamos um
jogo que nos fazia voar para longe, sentindo e ouvindo o que se passava ao
redor, nos mínimos pormenores. De olhos fechados, em silêncio, procurávamos distinguir
todos os sons que conseguíamos. Terminava quando uma de nós (pensava) já não
ouvir mais nada. Seguia-se a partilha, cada uma dizia o que tinha ouvido e sentido.
Por vezes, quando uma de nós tinha ouvido ou sentido algo mais que a outra, recomeçávamos
o jogo, fechando de novo os olhos e em silêncio, de sentidos despertos, voltar
a ouvir a natureza e todo o som, ainda que longínquo.
O resultado destes
passeios, era um chegar a casa ornadas de papoilas ou flores silvestres e um
sorriso de orelha a orelha. O avô, que entretanto já ordenhara as vacas e as
alimentara, contribuíra para os aromas de feno e de leite que se misturavam e
formavam um coquetel delicado e tão bucólico, que fazia a delícia dos nossos
sentidos.
Nesse dia, a laranja do
pomar tinha ainda mais sabor, o jantar e o diálogo eram a calma que toda a família
precisava, depois de um dia tão cheio de coisas boas.
Hoje ao recordar essas
brincadeiras, reparo que sem saber, o que ambas fazíamos em silêncio, já outros
o tinham feito em outras paragens, em plena contemplação e deram-lhe até um nome:
Meditação.
Pode meditar-se de
muitas formas, esta é só uma delas, o resultado, o mesmo. Treinar o sentir e
deixarmo-nos ir até onde a imaginação nos pode levar.
Nós fazíamos por norma
na Natureza, no campo ou na praia, mas mais no campo, em completa união com
Gaia. Deitadas de costas podíamos sentir quase o seu respirar. Nunca o fizemos
em casa, não sei porquê. Talvez porque quando o fazíamos já estávamos cansadas das
tropelias passadas naqueles passeios que eram mágicos e, para descansar, relaxávamos
desta forma.
Se nunca fizeram nada do
género, convido-vos a fazer. Os resultados são fantásticos. Além do relaxamento,
promove a união com a natureza, ao mesmo tempo que se estreitam laços com os
nossos filhos.
Saudades desses momentos
e vontade de repetir um dia destes.
Judite Pato

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