Medos e medos!
Medos e medos!
Quando ia adormecer-me, a
minha mãe contava-me histórias que inventava e que me deliciavam. Dona de uma imaginação prodigiosa, conseguia fazer parecer real qualquer história, teatralizando, de forma a tornar o mais convincente
possível o que queria transmitir.
Um dia, teria talvez uns
3 ou 4 anos, foi deitar-me para dormir a sesta. Como era seu costume, a
história começava com o clássico, Era uma vez…
Era uma vez uma senhora
que apesar de querer muito ser mãe, porque adorava crianças, não conseguia ter
filhos. Algo de errado se passava com ela. Muito triste, via os dias passar e
envelhecer, sem que nascesse o tão desejado bebé. Um dia, alguém disse-lhe:
porque não consultas uma fada? Ouvi dizer que quem seguisse os seus conselhos
tinha os desejos concretizados. A Sra. Assim fez. A fada disse-lhe que haveria
um certo médico, num determinado hospital, que seria capaz de fazer com que
fosse mãe. Ela ficou tão feliz com essa perspetiva que no dia seguinte,
dirigiu-se de imediato ao tal hospital. Depois de muitos testes e exames, conseguiu
finalmente ficar de bebé. Com mil cuidados, o tempo foi passando, até que chegou a hora do nascimento. Ia finalmente concretizar o
sonho de ser mãe. A menina nasceu sem complicações e o grito de choro da
chegada a este mundo, fez eco com o de alegria dos pais.
Quando chegou a hora de
amamentar, todas as mães da enfermaria receberam os seus filhos, menos a Sra.
que tanto tinha sofrido e querido o seu bebé. Desesperada, pensou que o seu filho
tivesse morrido e começou a chorar. Quando as enfermeiras viram o seu choro
perguntaram-lhe, o que se passa? Ninguém me trouxe o meu bebé, naturalmente
morreu e ninguém me diz nada! Exclamou aflita. Naquele momento, as enfermeiras
ao verem o seu sofrimento, retiraram-se e voltaram com uma menina que dormia
calmamente nos seus braços e entregaram-lhe.
Por esta altura, a minha
mãe parou de contar a história e verificou se dormia. Como os meus olhos
estavam abertos como faróis, a mãe continuou. Na verdade, a bebé da Sra. tinha
mesmo morrido. Na mesma altura, uma cigana tinha dado à luz mas não queria mais
filhos, porque já tinha muitos e tinha dificuldade em alimenta-los a todos.
Então ofereceu o bebé para adoção. A Sra. Não se importou, afinal ia ter o seu
bebé de qualquer maneira e aceitou. Levou-a para casa, tratou muito bem dela e
era admirada e amada pelos “pais” e restante família.
A minha mãe calou-se de
novo. Ficou muito séria. Eu perguntei, e depois, mais desperta do nunca… A mãe
olhou-me nos olhos e disse muito séria, esse bebé, és tu. Fiquei confusa e
arrepiada. Não podia ser eu, a mãe só podia estar a brincar. A mãe continuava
muito séria e acrescentou, estou a contar-te porque hoje a cigana vem cá a casa
buscar-te, quer-te de volta. Nessa altura, comecei a chorar convulsivamente,
não é verdade, está a brincar comigo, gritava. Nesse preciso momento soou a
campainha. A mãe acrescentou, olha, deve ser ela… Entrei em choque e fugi a
esconder-me em silencio no sótão, atrás de umas caixas,,, onde ninguém me
encontrasse.
Nesse momento a mãe
percebeu que tinha ido longe demais com a história e chamou-me carinhosamente,
dizendo-me que não passava de uma história. Anda filha, dizia, quem tocou à
campainha foi o leiteiro… Durante horas permaneci escondida, bem no cantinho do
sótão atrás de caixotes e malas. Quando já não tinha mais lágrimas e anoitecia,
resolvi aparecer.
Nessa altura, a mãe abraçou-me
muito e disse-me ao ouvido, não vês que és tão parecida com o pai e branca e
loira como a mãe?
Mas mãe, balbuciei…
chocada ainda, olhando-me ao espelho verificando a cor da pele.
Horas depois ainda
tremia. Acho que a minha mãe foi longe demais. Ainda hoje escuto aquela
campainha a tocar e as vozes que falavam baixo. Esta história, que pretendia
adormecer-me, transformou-se num pesadelo. Desta vez a Mãe tinha exagerado,
exagerou mesmo.
A parti daí, ela teve
mais cuidado com as histórias que inventava e dizia sempre que tudo o que ia contar,
não passava de coisas da sua imaginação.
Talvez por isso, sempre
tive um cuidado redobrado em não meter medo à minha filha. Não temos que ter
medo de nada. O medo enfrenta-se. Se houver um barulho desconhecido, vamos ver
o que se passa. Nunca a ameacei com o velho do saco que a poderia levar se não comesse
a sopa ou não fosse dormir. Ao contrário, dizia-lhe que se não comesse a sopa
poderia ficar doente, porque na sopa existem umas coisas, chamadas vitaminas
que nos protegem. Por outro lado, se não for dormir naquela hora combinada, no
dia seguinte não irá conseguir entender tudo o que se passe na escola, porque
os olhinhos vão fechar-se, enquanto os dos colegas vão estar despertos para
tudo, quem ficava a perder é ela.
Não creio que tenha
crescido com alguns medos.
No entanto, o medo é
necessário porque é ele que nos protege alertando-nos. Mas, quando em demasia,
pode tolher-nos os movimentos e a mente, inibindo-nos de viver a vida em pleno.
Tudo pode ser enfrentado e quando não são capazes, os pais estão cá para esclarecer
e proteger.
É muito importante explicar
que NUNCA se deve falar nem aceitar nada de desconhecidos. Aqui é importante
que haja medo, porque na verdade pode ser muito perigoso. A explicação de
que muitas crianças desaparecem e nunca mais se sabe delas, é uma verdade que
deve ser dita logo que ela tenha entendimento para tal. Este medo irá
afasta-la de possíveis perigos de desconhecidos, mas também e, especialmente,
de conhecidos que a abordem sem estar junto do pai ou da mãe, mesmo que digam
que a levam a casa. Nestas situações, não deve sair ou se já tiver saído, deve
voltar para a escola e pedir ao educador, ou outro adulto, para contactar os
progenitores.
Medo só daquilo que se
vê e não gostamos. Apagar a luz para dormir,deve ser a coisa mais
normal. Não existe lobo nenhum debaixo do limoeiro para vir buscar os meninos
que não dormem. Quando algumas crianças dizem ter medo do escuro, apague a luz
e junto dela tentem aperceber-se do que pode fazer medo. Depois acenda a luz e
vejam que a sombra que se mexe na parede não passa de ramos da árvore que
baloiçam por estar vento. Verifiquem juntos. De seguida, apague a luz,
aconchegue a roupa, dê mais um beijo e diga de novo, Boa noite filha!
Judite Pato

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