A magia das palavras



A magia das palavras

Lembro-me que um dia cheguei a casa muito feliz. Tinha tirado a melhor nota da turma. Estava tão feliz por mostrar que gritei mal cheguei, mãe, mãe, fui a melhor, tive a melhor nota! Disse, saltando ao pescoço dela. A mãe sorriu e retorquiu, não fizeste mais que a tua obrigação! O meu entusiasmo gelou! Pensei, quando o pai chegar, vai ser diferente. Quando ele chegou, lancei-me ao seu pescoço e disse, pai tive a melhor nota da turma! Ele sorriu e disse, muito bem! Mas esse é o teu trabalho, por isso é normal que sejas a melhor. Fiquei levemente triste. Digo levemente porque ninguém poderia tirar a alegria pessoal de me ter ultrapassado. Eu merecia, embora não estudasse muitas horas, era suficiente para ter tido uma boa nota que a todos surpreendeu, na escola e até a mim, mas em casa ninguém tinha ficado verdadeiramente feliz.

O tempo passou e ao invés de me esforçar para fazer melhor, cumpria rigorosamente as aula, mas a minha cabeça não estava mais ali. O resultado do teste seguinte causou admiração, mas por motivos contrários. Tinha tido a nota mais baixa da turma. Quando cheguei a casa, confesso que estava com medo. Quando disse a nota as reações não foram as melhores. A mãe ficou muito aborrecida e disse, quem me dera no meu tempo ter tido a oportunidade que tu tens. Estás a desperdiçar, não tens vergonha? Não estou para sustentar preguiçosas, é o teu trabalho! De cabeça baixa, receei ainda mais o que o pai iria dizer. Quando ele chegou foi a mãe que lhe disse o que se tinha passado. Saí do meu quarto de cabeça baixa e a tremer. Então, o que se passou? Perguntou o pai… bem, tentei explicar, não sei porquê mas não consegui estudar, nem prestar muita atenção às aulas. Para a próxima será melhor, disse a medo. Sabes que o pai gostaria muito de ter tido essa oportunidade, disse olhando-me nos olhos ternamente, mas os meus pais achavam que não era necessário estudar mais, tínhamos o suficiente para viver, para quê estragar a cabeça, dizia a tua avó. Mas eu sempre achei que é maravilhoso aprender. Se tu tens essa oportunidade, o pai e a mãe trabalham para que chegues onde queres, mas tens que fazer o teu melhor. Desta forma, faz-nos pensar se vale a pena, ou se será melhor deixares os livros, rematou. A mãe, lá longe, disse, o mal está mesmo nos livros que ela está sempre a ler, depois os da escola ficam para trás! Se te vejo de novo a ler livros que não são da escola, rasgo-os todos! Exclamou irritada.

Confesso que fiquei lívida. Os livros que lia eram requisitados na biblioteca, não eram meus, não podia estraga-los. Sempre adorei ler, por vezes lia os livros todos de um autor. Depois passava a outro. Era a forma de viajar sem sair do lugar, de viver vidas diferentes, ausentando-me sem ninguém dar por isso.

Mas, mãe são livros que nunca podem ser estragados, Ripostei a medo… mas quando tive boas notas ninguém me deu os parabéns... PARABÉNS? MAS TU SÓ FAZES A TUA OBRIGAÇÃO! Disse a mãe quase gritando. A mim ninguém me dá os parabéns quando faço algum negócio bem feito ou te faço um vestido bonito. Calei-me! Na verdade, não me lembrava de agradecer tudo aquilo que me davam todos os dias. Achava natural, era sua “obrigação” que me dessem tudo o que precisava. Pensando bem, muitos não tinham tudo o que eu podia usufruir e eram bons alunos. Será que estava errada?

Hoje, a esta distância, percebo que possivelmente por sua causa tornei-me numa lutadora. Amarga, carente, mas lutadora. Muito cedo fui financeiramente independente. Mesmo assim eles continuaram a dar-me e a ficar aborrecidos porque usei o meu primeiro ordenado para tirar a carta. Com orgulho, pensava que já chegava o que me tinham dado. Na verdade, continuava a não ouvir aquele elogio que esperava pela obra feita. No entanto, ao contrário, eu agradecia cada coisa que me era dada. Sabia o quanto era agradável ouvir um obrigado, gostei muito.

Durante toda a minha vida, esteve presente o elogio, quando merecido, para incentivar cada pequena vitoria aos que me rodeavam. Nunca economizar nas palavras que são uma verdadeira  caricia à alma. Fiz do muito bem, do parabéns e do obrigado, uma bandeira, não me dei mal. Sinto-me bem quando vejo os olhinhos dos meus alunos, entusiasmarem-se com as suas vitórias e, sei, que isso os irá fazer crescer ainda mais. Nunca me dececionaram… Um dia destes conto…

Judite Pato

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